Cabo de guerra – Por Arnaldo Luiz Corrêa

Cabo de guerra – Por Arnaldo Luiz Corrêa

O mercado de açúcar em NY encerrou o pregão de sexta-feira com alta expressiva na semana de 41 pontos no vencimento maio/2015 e 40 pontos no vencimento julho/2015, cotados respectivamente a 13.24 e 13.18 centavos de dólar por libra-peso. A inversão de maio/2015 em relação ao julho/2015 no início da moagem no Centro-Sul quando, em tese, mais açúcar estaria disponível para o mercado, demonstra a percepção de que a história não é bem essa. Os detentores de posições vendidas a descoberto tiveram que recomprá-las fortalecendo o spread maio/julho. A maior demanda por etanol nesse primeiro trimestre do ano faz com que as usinas priorizem a produção de etanol e diminuam a disponibilidade de açúcar, cujo retorno é menor. O mercado internacional reage com o fortalecimento do spread. Vai persistir? Depende. Muito se fala sobre uma volumosa entrega de açúcar em NY contra o vencimento maio/2015 que ocorre dia 30 de abril. Vamos ver como se comporta o mercado até lá.
 
Os fundos cobriram aproximadamente 26.000 contratos dos mais de 110.000 que estavam vendidos a descoberto. Devem ter embolsado alguma coisa ao redor de US$ 100 milhões. Volume expressivo de cobertura considerando que o mercado subiu menos de 100 pontos. Para haver um pânico que estimulasse os fundos a liquidar suas posições haveria necessidade do mercado ultrapassar os 14 centavos de dólar por libra-peso base maio/2015, pelo menos. Não há nada no horizonte para isso.
 
A CONAB divulgou a estimativa de safra de cana no Centro-Sul como sendo de 592.7 milhões de toneladas, com uma produção de 33.7 milhões de toneladas de açúcar e 26.9 bilhões de litros de etanol. Um número extremamente baixista. A estimativa da Archer divulgada em fevereiro é de 573.7 milhões de toneladas de cana, divididas em 32.2 milhões de toneladas de açúcar e 26.3 bilhões de litros de etanol. As notícias vindas da Índia indicam que aquele país deve produzir 27 milhões de toneladas de açúcar na safra 2015/2016 que se inicia em outubro. Nada animador para o mercado.
 
Em recente documento divulgado pelo Ministério das Minas e Energia (MME), o governo estima que o consumo de combustíveis Ciclo Otto, em 2023 será de 85 bilhões de litros. O número é abaixo do estudo da Archer de 2014, que apontava um consumo estimado de 90 bilhões de litros. Talvez o MME seja mais conservador para não mostrar o tamanho real do buraco que temos nesse setor. Segundo o MME, em 2023 a oferta de etanol será de 30 bilhões de litros, praticamente inalterada levando em consideração os números de hoje, mesmo porque o investimento no setor está próximo de zero. O MME estima também que a oferta de gasolina nacional fique estancada em 29 bilhões de litros. Logo, deduz-se que se a demanda for de 85 bilhões como eles divulgam e a oferta doméstica de etanol e gasolina somadas é de 59 bilhões de litros, temos um déficit de oferta 26 bilhões de litros. De onde virão? Da produção de etanol domesticamente (mais investimentos necessários) ou da importação de etanol de milho e/ou de gasolina?
 
Para nós da Archer, a demanda potencial interna por gasolina A, em 2023, será de 48.4 bilhões de litros e a de etanol 41.8 bilhões de litros. O tamanho do buraco, usando a oferta publicada pelo MME, é de 31 bilhões de litros que, na nossa conta, representam 19 bilhões de litros de gasolina e 12 bilhões de litros de etanol.
 
O fechamento do mercado de sexta-feira aponta que o açúcar em NY convertido em reais chegou a pouco mais de 925 reais por tonelada. Os meses seguintes de vencimento, julho e outubro de 2015, fecharam respetivamente a R$ 918 e 942 por tonelada, a valor presente descontado o custo do dinheiro. Pelas movimentações internas de etanol e a percepção de melhora na demanda interna pelo combustível, acreditamos que o açúcar pode negociar próximo dos R$ 970 por tonelada no segundo semestre do ano. Se o dólar voltar a 2,9000 isso representa hoje o outubro/2015 negociando em NY a 14.75 centavos de dólar por libra-peso; se o dólar negociar a 3,2000 significa NY a 13.25 centavos de dólar por libra-peso.
 
Duas correntes fortes nesse mercado. Gente que acredita que ele vai quebrar os 11 centavos de dólar por libra-peso e que ainda não negociou suas mínimas; que as coisas vão piorar muito antes de melhorar e, aqueles que acreditam que as mínimas já foram vistas e o mercado tem espaço para subir. De um lado, aqueles que acreditam que a Tailândia vai despejar grande quantidade de açúcar no mercado internacional, independentemente do seu custo alto de produção e que também, antecipando a entrada do açúcar europeu no mundo a partir de 2017, tudo será um caos. Do outro, aqueles que olham a falta de investimentos no setor do mais importante produtor de açúcar do mundo, cujo mercado interno de combustível continua demandando uma quantidade de cana que a produção não será capaz de suprir a menos que tire mais açúcar do sistema. É um cabo de guerra
 
Arnaldo Luiz Corrêa é diretor da Archer Consulting - Assessoria em Mercados de Futuros, Opções e Derivativos Ltda.